segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Andando de Trem


Tenho ido de trem para o trabalho todos os dias – menos quando chove, porque ninguém merece se molhar, desviar dos guarda-chuvas alheios e tentar não ser “alagado” pelos motoristas insanos e insensíveis que passam por nós, como se o dirigir fosse o último ato mais crucial de suas toscas vidas.  Mas, percebo que existe uma cultura diferente no trem – apesar de existirem os mesmos mal-educados que têm no ônibus, na lotação, no avião. Enfim, tirando as coisas normais, as pessoas ainda têm um pouco de senso de ajuda e, quando a pessoa que conduz o trem pede, pelo auto-falante, que ao sair do trem na última estação fechem as janelas, acontece algo incrível: todos fecham as janelas. Na primeira vez que presenciei a cena, achei estranho. Juro! Ninguém discute ou se estressa; parece ser algo totalmente natural, mesmo sem o pedido do condutor. No ônibus, abre uma janela e lá vem um pentelho reclamar do vento no cabelo, de um pingo mínimo de chuva que caiu na testa ou que não gosta das impurezas que entram da rua para dentro do ônibus – essa é por minha conta....rsrsrsrrs....Até porque, em alguns casos, existem mais impurezas dentro do coletivo do que fora dele. Na lotação, ninguém quer passar um friozinho, preferem ficar sufocados, aspirando todos os germes que passam entre si, entupindo as vias nasais com aquele arremedo de ar-condicionado medonho. No trem, apesar das caras cansadas, tanto na ida quanto na volta, tem aquela sensação de que todos querem a mesma coisa, independente de estarem sentados – nos bancos ou no chão, de pé, apertados, largados nos “pole dances” cravados no meio dos vagões, todos querem chegar ao seu destino sem pressão, sem estress, curtindo seu mp3, 4, 5, etc, lendo seu livro, conversando com o vizinho do lado, observando o que se passa ao redor ou, simplesmente, curtindo a paisagem lá fora. Tem uma aura diferente quem usa o trem – isso ficou claro para mim. E, a rapidez que se chega ao destino desejado é algo: da estação que entro até a estação final (centro)  levo míseros 05 minutos. Sabem o que é isso: 05 minutos – tirando o tempo que levei para chegar até o trem, ok??? Se eu fosse de lotação, seriam 25 min, de ônibus, seriam 25 ou 30min e de carro, dependendo do trânsito naquele horário, mais ou menos o mesmo tempo.   Então, tenho que continuar indo de trem. Perco peso, ganho resistência, vejo pessoas diferentes todos os dias, aprendo de vez o que “direita” e “esquerda” e, acima de tudo isso, ainda dou uma boa poupada na grana, porque a passagem é bem mais barata que lotação ou ônibus. É isso: tô apaixonada pelo trem. Recomendo a quem nunca andou, experimentar...Vale a pena!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Identidades Falsas


Ainda em Rivera, começamos a imaginar que teríamos que fazer identidades falsas para não ultrapassar a famigerada cota de 300 dólares e, depois de um jantar regado a taças e taças de Freixenet – espumante maravilhoso, a coisa começou a se formar em nossas cabeças. Primeiro, minha amiga que é mulata, olhos redondos e bem abertos, rosto com sardas, disse que faria uma identidade falsa com nacionalidade japonesa. E, daí, desenvolveu-se a cena:


Identidade Japonesa:

- A senhora é japonesa? – perguntaria a vendedora.

- Sim. Sou. (Meio titubeante a resposta.)

A vendedora com dois olhos de dúvidas imensos, fica olhando, sem reação. Minha amiga, muito esperta, sai logo com a explicação.

- No último terremoto que Japão sofreu, o susto foi grande. Você já sentiu terra tremer? Não?? Nem deseje passar por isso. Eu era gueixa, sabe??? Quando o tremor começou, o susto me fez arregalar os olhos demais e fiquei assim, sem conseguir fechá-los novamente; minha pele era bem branquinha, sem manchas e, com toda aquela fuligem no ar, dos incêndios e fumaça que saía dos prédios, mudei completamente: fiquei cheia de sardas, mais morena e meus cabelos se rebelaram. Meus pés, então, nem se fala....Viviam apertados naqueles sapatos feitos para deixar nossos pés bem pequeninos e, com o susto que levei, explodiram meus sapatos e agora, calço 36 ou 37, às vezes, dependendo da forma e marca do calçado. Vim para o Brasil para fugir de tudo aquilo e não quero mais voltar. Sou livre, leve e cheia de graça como toda boa brasileira. Agora, entendeu porque minha foto é diferente na identidade? Não sou assim de nascença, na verdade, renasci de um susto.

Identidade Sueca:

- A senhora é sueca?

- Sim. Sou. (Meio titubeante a resposta.)

A vendedora com dois olhos de dúvidas imensos, etc.etc.etc..................................................

- Quando eu tirava leite das vacas que meu pai criava, para fazer chocolate, uma delas me deu uma patada, que acabou deformando meu rosto. Vim para o Brasil tentar consertar o estrago e, acabei pegando muito sol e fiquei assim: os cabelos se rebelaram com a água salgada do mar, minha pele começou a avermelhar, avermelhar e acabei ficando com cor de cuia que ainda não foi usada e, de tanto ficar sentada ordenhando vacas, quando cheguei aqui, recebi um choque enorme na minha postura: perdi altura e ganhei peso. É isso. Essa, na foto, sou euzinha mesmo. Se alguém tem culpa disso, é a vaca.

Já imaginaram o sucesso que as identidades falsas fariam??? Boas risadas renderiam, com certeza.....rsrsrsrsrsr



Meias em Rivera

Fui a Rivera com uma amiga – meio que “mula” dela e, como foi minha primeira experiência, fiquei  fascinada por aquele paraíso de odores maravilhosos que saía a cada porta de loja que passávamos. Mas, ao mesmo tempo, do lado de fora, éramos atropeladas – a todo momento, por vendedores ávidos em nos enfiar goela abaixo pares e mais pares de meias, de uma forma insistente, cansativa e desagradável. A pergunta que surgia em  minha cabeça, a cada um que chegava chegando repleto de meias, era: “34 graus...usar meia aonde com esse calor?”. Como isso aconteceu o tempo todo, começamos a levantar algumas possibilidades para tanto desespero e falta de noção: as meias eram feitas de cocaína e, nosso lado CSI começou a imaginar situações, tipo, compraríamos as meias e, na Receita Federal, nos fariam descer e  meias seriam colocadas em bacias com água morna para testes de presença de coca e, claro, nos ferraríamos porque as meias seriam todas feitas da droga, a mais pura e, como explicaríamos isso? Outras situação, seria o ar condicionado do ônibus estar hiper-super-muito gelado e colocarmos as meias para aquecer nossos pés, sair para andar um pouco no corredor esticando as pernas  e o tapete do ônibus ficar todo marcado de branco com o desenho dos nossos pés....quanta loucura, não?? Afinal, qual seria o objetivo de venderem meias feitas de cocaína para pessoas que apenas usariam as meias em seu lugar de uso: os pés. Viagem pura a nossa.  Mas, claro que perguntamos por que vendiam tantas meias e responderam que era o ganha-pão deles, que era melhor que roubar...Mas, a explicação não convenceu e voltamos para casa com a pulga atrás da orelha, desconfiando que, de alguma maneira, aquelas meias conseguiam atravessar as fronteiras e fazer com que pessoas desavisadas andassem desfilando pó branco por aí e, misturada a essa ignorância, muito chulé também. Quando a imaginação é fértil, sobram insinuações e muita diversão.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Relacionamentos: Bônus e Ônus


Quando chegamos a uma certa idade - muitas vezes, sem a maturidade necessária para aceitar que já estamos em um patamar evolutivo, onde pensamos mais nas conseqüências de nossas ações e, por isso, deixamos de fazer algumas coisas que gostaríamos de fazer, fica difícil aceitar certas atitudes, certas coisas  que a vida resolve nos presentear. Fomos criadas para amar e ser amadas, para constituir família e, como em um conto de fadas, termos o final feliz de toda e qualquer princesa que preze sua coroa, seu lado mais frágil, o lado, digamos, mulherzinha. Mas, os tempos modernos fazem com que a necessidade de ir à luta, de buscar a tão desejada independência, de crescer sabendo o que se quer, faz com que esses sonhos acabem ficando em segundo plano, onde o que importa é o “ter agora”, é o viver o presente; é ter o poder da escolha: ficar em uma relação que não me satisfaz ou ficar sozinha e dar a cara a tapa, me sentir realizada? Nossas mães não passaram por isso, porque as escolhas não existiam. As famílias já tinham traçado seus planos e, se quisessem mudar algo, a coisa ficava meio feia, mas, nada que não pudesse ser resolvido de maneira pacífica – se os pais, claro, tivessem um pouquinho que fosse,  a mente aberta.   Algumas mulheres passaram por cima desses esquemas já formados, e conseguiram trabalhar, constituir família, criar seus filhos e cuidar da casa – minha mãe foi um exemplo disso - e, acabaram sendo a base familiar, trabalhando lado a lado com seus maridos e mudando a visão de que a força aceitável da casa era a do homem. Mas, o que quero falar mesmo é que, depois de uma certa idade, começamos a desconfiar até da nossa sombra quando o assunto é relacionamento. Toda relação vai ter seu bônus e seu ônus, claro. O bônus será ter alguém ao seu lado, acordar e ver que aqueles braços de ontem, ainda estão ao redor do seu corpo e não foram apenas abraços fortuitos, daqueles que acabam no meio da madrugada e, você, sozinha na manhã seguinte, sabendo que nunca mais verá aquela pessoa novamente. Esse bônus, te traz um pouco mais de segurança,  mostra que ainda pode existir romantismo, companheirismo e alegrias em uma relação madura, onde ambos concordam em fazer concessões, dar espaço, não atropelar o tempo do outro. E,  isso nos deixa leves, bobas e encantadas. Mas, o ônus, chega e, de repente, o coração que se desenhava em nossos olhos a cada novo encontro, torna-se pontos de interrogação, porque, dentro de uma relação, depois dos 40, existem dois passados: o dele e o seu, então, existem muitas outras coisas agregadas a cada um, existem outras histórias, outras pessoas e, nesse momento, nossa maturidade precisa entrar em ação, nossa paciência começa a ser testada e nossa segurança em relação ao romance, fica balançada. O que fazer? Não sei. Estou fugindo dos romances, dos envolvimentos – pode parecer cínico e debochado para minhas amigas que  estão envolvidas com alguém, ou,  para aquelas que querem alguém para se enrolar, mas, fico pensando no que dizer, no que aconselhar.  Sou metida e, não é porque não tenho ninguém e nem procuro por tal, que não posso ter opinião ou dar um conselhinho básico, não é?? Acho que quando pinta o “ônus” da relação, o diálogo, a cumplicidade tem que aparecer e, de maneira saudável, educada e verdadeira, colocar as dúvidas, os receios, as coisas mais bobas que surgirem, na mesa; se tiver que cobrar postura, cobre; se tiver que cobrar respostas, cobre; se tiver que chorar, chore, mas, não deixe de abrir seu coração, de permitir que o romance entre em sua vida, pois, se duas pessoas estão juntas, se ambas se encontraram em um momento de distração, é porque o universo conspirou prá isso e quer que essa relação aconteça. Se o caminho for meio pedregoso, o diálogo vai destruindo essas pedras e, se for para dar certo, a estrada até poderá não ser de tijolos amarelos, mas, certamente, será feita de paixão, retas e curvas de entrega e, no final, quem sabe esse sapinho não vira o príncipe que você tanto leu nas estórias de final feliz? Só que com ambos dividindo os bônus dessa relação.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cansada!

Ando cansada. Muito cansada. De tudo. Do pouco tempo para fazer algumas coisas. Da falta de ânimo para trabalhar. Da falta de grana antes do final do mês. De ouvir a música insuportavelmente alta do vizinho, querendo que meus tímpanos se suicidem.  De pessoas. Principalmente, de algumas pessoas que me cercam diariamente, aquelas que te deixam irritada só com a presença, que te incomodam ao abrir a boca, que te arrepiam de raiva só de te olhar. Cansada. Exausta. Furiosa. Enfim, isso é resultado do ano que está acabando, eu acho. E, mesmo no meio de tanto “cansaço”, consigo pensar em algumas pessoas que, parece, ainda não tiveram esse problema – alguns porque não sabem fazer outra coisa e outros porque o  salário não compensa desistir da carreira (o que eu também faria se ganhasse rios de dinheiro). Bons exemplos são: Faustão,  ainda não cansou de não deixar ninguém falar, de ficar sem resposta para suas perguntas idiotas e de não obter gargalhadas para suas piadas sem graça;  Xuxa, essa não vai cansar tão cedo, afinal, ganhou uma grana invejável para pintar o cabelo....imagina se vai cansar de ser mais infantil que a filha, de ser a eterna namorada do piloto mais famoso do mundo ou de ficar falando com aquela  vozinha  irritante de criança que fez coisa errada e não quer ser castigada – acho que, no fundo, ela gostaria de ser bem castigada.  Claudia Leite não cansa de se achar a mulher mais linda do planeta, a voz mais potente do país, a mãe mais exemplar e cuidadosa do mundo? Para mim, isso é insegurança e ela precisa expressar isso em atitudes idiotas na mídia que, sempre atenta, dá corda para a louca se enforcar aos poucos. Um certo programa humorístico não cansa de ficar humilhando as pessoas que entrevista, de ficar tentando entrar em festas para as quais não foi convidado ou,  ficar avacalhando com seus próprios apresentadores?   As novas duplas sertanejas não cansam da mesma fórmula: calça jeans colado ao corpo, cinto com fivela prateada, camisa baby look, chapéu de vaqueiro e botas de salto para parecerem mais altos e ficarem mais vistosos? Não cansaram de andar de camaro amarelo? De quase ser morto pela "delícia, delícia....."? De dormir na praça? Claro que eu, mísera empregada, com toda a grana que rola entres essas pessoas, também não me sentiria cansada, pois teria grana sobrando  e gente babando, suplicando para me servir  e atender meus pedidos. Só que minha realidade é outra. É essa que estou vivendo agora, a do cansaço total e sem previsão de melhorar, de mudar minha visão antes da virada do ano. Tudo se resolve, eu sei, mas, tem coisas que demoram a acontecer, a se modificar e isso me deixa estressada, por que quero tudo para o já, o agora e, quanto mais ansiosa,  mais demorado o processo. Já escrevi, já coloquei em palavras o que estava sentindo, então, vou tentar relaxar e ver como as coisas se ajeitarão.  Que tudo seja logo! Ah, juro que isso não é indício de depressão ou um suposto ensaio ao suicídio....É só vontade de desabafar com as palavras.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Revolta da Natureza

A natureza está se vingando muito bem de nós, meros humanos, que insistimos em mexer com os brios dessa força que não temos sequer idéia de todo seu poder.  É chuva que vem com tudo, alagando e levando tudo que vem pela frente; é vento que derruba casas, arranca árvores, contorce ferros; é sol que chega para dar uma secada  no que a chuva deixou ensopado; é frio que nos tonteia porque não sabemos, com certeza, onde terminou o inverno e começou a primavera. A doideira está tão grande que, pela manhã, saí com sol, de óculos escuros, com um ventinho não tão frio, quando cheguei na parada da lotação, percebi que meu óculos estava cheio de pingos e me dei conta de que estava chovendo – claro que não tirei eles do rosto, o sol “ainda” estava brilhando. Quando cheguei no centro, o vento havia aumentado sua força e começava a nublar; como fui caminhando do centro até meu local de trabalho – isso deve dar uns 15, 20 minutos – fui sentindo calor e imaginei que o dia seria quente. Agora, sentada  dentro da minha sala quentinha, janelas fechadas, estou ouvindo a fúria do vento lá fora, fechou geral o tempo e o sol se foi, assim como minha esperança de que esquente até o final da tarde e, pior, está caindo aquela chuvinha fina, que só serve para embaçar nossos óculos e molhar nossa roupa, pois, com esse vento forte e a indecisão da chuva em saber prá que lado vai virar, não tem como usar uma sombrinha  - o jeito é encarar as gotículas quase invisíveis que caem, mas, acabam deixando suas marcas em nossas roupas sequinhas e quentes. E, mesmo com toda essa loucura da natureza, vejo que as pessoas continuam sem se preocupar com suas atitudes diárias, não respeitando espaço nenhum, não fazendo uso do bom senso para que essas enchentes, alagamentos, bueiros entupidos não sejam uma  tortura  para quem  tem noção de que, cada vez que chove, os rios sobem, os esgotos não dão vazão á água que fica nas ruas e o lixo se espalha por todos os lados. Não vejo dificuldade em separar o lixo,  colocá-lo em sacos bem fechados, deixá-lo dentro do meu pátio  e esperar que a coleta seletiva passe e recolha tudo.  Vejo que tem muita gente que se acomoda porque sabe que, em algum momento, alguém vai passar e recolher a garrafa pet que está largada na frente do seu portão, a lata de cerveja que foi descartada no meio da rua ou a caixa de leite que foi colocada dentro da lixeira, mas o vento forte carregou.  Para mim, virou uma atitude normal voltar para casa, depois de sair com meu cachorro, e levar algumas dessas tralhas para colocar dentro do lixo seco que recolho e, toda sexta-feira, entrego ao lixeiro. Não vejo dificuldade nessa ação, o que vejo é um relaxamento coletivo, um pensamento pobre de que qualquer  tragédia aquática que se abata sobre uma cidade é culpa, exclusivamente, do governo.  Se todos pensassem no coletivo,  muitas coisas ruins que acontecem por aí, certamente, seriam evitadas. Tento fazer minha parte, mas, sou apenas uma entre tantas outras poucas que sei que têm esse cuidado. Como mudar a mentalidade das pessoas? Trabalharei o cérebro para achar uma solução, antes que eu também seja inundada por essa onde de pouca vontade em ajudar a cidade e preservar a natureza.  

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cena Inusitada

Na fila da lotérica, esperando minha vez de ser atendida,  um senhor me chamou a atenção quando passou por mim direto para o caixa preferencial: magro, alto, usando uma bengala, aparência frágil, como se tivesse sofrido uma AVC ou outra doença qualquer, que  tornou seus movimentos lentos e necessitando  acompanhamento de outra pessoa, aparentando uns  70 e poucos anos – um chute, pois pela aparência adoentada não dá prá ter certeza. Ficou um bom tempo no caixa, pagando ou retirando dinheiro – realmente não vi o que fazia, e,  ao mesmo tempo  que  me chamou a atenção ao entrar, percebi na calçada lateral uma moça, jovem, fumando e que parecia ter também problemas, pois meio que mancava e o andar era meio enrijecido – não sei descrever direito. Bem, o senhor da bengala saiu do caixa e se encaminhou para a rua, para o lado onde estava a moça e eu,  fui para o caixa para ser atendida. Quando a menina ia me atender, ouvi uns burburinhos do lado de fora e todos se voltaram para a calçada onde estava a moça: o velho desceu do pequeno degrau, meio desequilibrado e tentou se agarrar na moça que, por sua vez, também perdeu  o equilíbrio e quase acabaram caindo. Um rapaz que passava na rua segurou o velhinho e na confusão, agarrado na moça, o velhinho quase caiu para dentro da lotérica e um senhor na fila correu para segurá-la – gente,  apesar do cenário parecer triste, ficou engraçado aquele embolamento, tipo aqueles bonecos que a gente empurra para lá e para cá e não caem nunca. A moça do caixa perguntou o que estava acontecendo, pois de onde estava não enxergava a lateral do prédio; falei que o senhor que havia saído dali tinha perdido o equilíbrio e uma moça na calçada o havia segurado, enfim, relatei a cena toda. Ela, claro, curiosa, levantou, olhou por cima do vidro do caixa, se espichando toda e começou a rir; fiquei olhando prá ela, sem entender nada e ela me disse que o velhinho e a moça, toda semana, iam a um motelzinho que tem ali perto e que ele fica todo errado – ou mais errado, ainda, porque toma Viagra. Juro que não acreditei no que ela falou, mas, ela falava com tanta convicção e, ainda disse que na semana anterior ele tinha chegado pior ali, pois o efeito do Viagra ainda não havia passado por completo. Olha, se vocês vissem a pessoa, concordariam comigo e ficariam apavorados que um senhor naquela situação ainda toma Viagra. Várias coisas me passaram pela cabeça: será que ele é sozinho, não tem um parente, alguém para levá-lo aos lugares onde precisa ir? Será que a moça que estava com ele é alguém de confiança, alguma conhecida, uma viciada, prostituta? Será que moram juntos? E a pergunta que mais mexeu com meus pensamentos: será que, mesmo tomando Viagra, ele transou com ela? Desculpem, mas, aquele senhor não tinha condições de nada, nem se tomasse uma caixa inteira, aliás, o que seria mais certo de ele conseguir era um ataque fulminante do coração, com morte instantânea mesmo, daquelas mais rápidas que preparar um miojo. E, ao mesmo tempo fiquei pensando que uma mulher tem  que ter muita coragem, necessidade ou falta de tudo que  mantenha sua dignidade intacta, para passar por isso. Mas, tirando esses “poréms” todos, fiquei impressionada com a situação e, pensando também que, quando esse velhinho passar dessa prá melhor, que seja nos braços de alguém que o faça feliz, rodeado de caixas de Viagra e ao lado de sua amada e necessária bengala.